1.3 Notas sobre Círculos de Cultura e Paulo Freire
Os alfabetizandos iniciavam o processo de leitura e escrita por meio do diálogo sobre suas próprias vivências, destacando palavras e temas comuns em suas comunidades. Educadores identificavam essas palavras-chave em rodas chamadas "Círculos de Cultura", que rompem com a estrutura hierárquica da sala de aula tradicional. Nessas rodas, todos analisavam juntos imagens das "fichas de cultura", refletindo sobre o fato de que todos são parte da cultura e igualmente criadores dela, apesar das diferenças.
As fichas de cultura foram criadas em 1962 para a experiência de alfabetização em Angicos (RN), com ilustrações de um desenhista de Natal e slides produzidos pela equipe de Gastão Roberto Coaracy, do Rio de Janeiro. Simples, as fichas eram aprimoradas durante os próprios Círculos de Cultura. Em 1963, uma segunda série, mais elaborada, foi desenvolvida com base na análise da primeira, sob responsabilidade do Ministério da Educação e revisão do Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE). Ainda em 1963, uma terceira série, com ilustrações do artista Francisco Brennand, foi criada para o Programa Nacional de Alfabetização e passou a ser considerada uma obra de arte.
Para Refletir
A ilustração abaixo, utilizada no Programa Nacional de Alfabetização (PNA), em 1963, para o antigo Estado do Rio de Janeiro, simboliza o debate sobre o "caçador iletrado", diferenciando o que é natureza do que é cultura. Um exemplo dado é o das penas: são natureza quando no pássaro, mas tornam-se cultura ao serem transformadas pelo homem. Esse entendimento leva à reflexão sobre culturas iletradas, nas quais não há escrita, mas existe produção cultural e educação por meio da transmissão de saberes.

De que maneira a figura do caçador iletrado nos leva a repensar o conceito de conhecimento e a valorizar saberes que não passam pela leitura e escrita tradicional?
Fonte: FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967. (Apêndice)
Observa-se que tanto o conceito do caçador iletrado quanto o uso das fichas de cultura valorizam o saber popular e o contexto de vida do educando. Ambos reforçam a ideia de que todo ser humano é um criador de cultura e possui conhecimentos válidos, ainda que não estejam registrados na escrita. Assim, a alfabetização não começa com letras, mas com a valorização da experiência e da identidade cultural de cada pessoa.
Essa reflexão levava os educandos a perceber que a desigualdade entre culturas - entre a cultura letrada e a iletrada, por exemplo - não era natural, mas sim fruto de construções históricas e sociais. Assim, compreendiam que o analfabetismo não é sinal de inferioridade, mas consequência de exclusões estruturais. E, portanto, a partir desse entendimento, nascia uma consciência crítica, que apontava para a possibilidade (e responsabilidade) de transformação do mundo pelas próprias "pessoas do povo".
Para Refletir

Como a compreensão crítica sobre trabalho e cultura, desenvolvida nos Círculos de Cultura, pode despertar nos educandos o desejo e a disposição para transformar a realidade em que vivem?
De que forma o reconhecimento da própria história de luta pelos camponeses, nos Círculos de Cultura, fortalece a consciência de seus direitos e o engajamento na transformação social?
